
Ao se deparar com essa pergunta, diversos tipos de respostas podem surgir, especialmente se usarmos o nosso pensamento rápido e impulsivo. Muitos acreditam que as decisões na vida são fruto de um processo de análise que faz uso de lógica e da razão. Há quem diga que decide de forma mais impulsiva. Enfim, muitas maneiras de reação podem vir à tona quando nos deparamos com uma situação que exige uma resposta, uma ação ou uma decisão.
O autor Daniel Kahneman, Professor de Psicologia de Princeton, nascido em Israel e ganhador do prêmio Nobel de Economia, em conjunto com outros pesquisadores, mostra por meio de evidências que a tomada de decisão e as respostas às situações na vida não são feitas pela lógica ou pela razão. Embora sejamos seres dotados de inteligência e de capacidade de raciocínio e lógica, a maioria de nós toma decisões com base nas emoções e impulsos instintivos que, muitas vezes, ocultam a verdadeira clareza de uma situação.
Como tomamos decisão?
Quais são os fatores que estão por trás da nossa toma de decisão?
Esse tema é bastante relevante e pertinente para os estudos e trabalhos referentes ao comportamento e desenvolvimento humano. Um primeiro aspecto está relacionado com a expansão do autoconhecimento. Ao tomar consciência de como as informações são armazenadas e como processamos as nossas experiências, poderemos compreender de que maneira respondemos às diversas situações. E o segundo, como consequência, se refere à possibilidade de buscar caminhos de desenvolvimento para encontrar melhores versões de nós mesmos.
Além do desenvolvimento e autoconhecimento individual, esse tema traz benefícios a toda a sociedade. Afinal, quando os cidadãos estão cientes pelo que tomam suas decisões, poderão se “proteger” das centenas de influências externas que tem por objetivo principal manipular a sociedade. Isso sempre ocorreu, no entanto nos dias de hoje ainda mais, devido às mídias excessivas e ao fácil acesso que os algoritmos têm sobre nossos impulsos e ações na Internet. São bombardeios de informações e mensagens que visam, de forma implícita e ou subliminar, convencer a pessoa sobre algo, criar um desejo ou uma necessidade para que se realize uma compra ou para que seja tomada uma ação imediatista. Além disso, existem estratégias cuja finalidade principal é fazer com que a pessoa siga uma ideia ou um pensamento. Ou simplesmente criam estímulos para provocar interações ou um mero “like”.
Fazemos um pequeno parêntese sobre os benefícios para a sociedade porque acreditamos que o autoconhecimento é um pilar que pode favorecer o processo de desenvolvimento de um grupo de pessoas. E isso se dá a partir do momento em que os seres humanos tem maior consciência de si. Esse processo ajuda cada um a se aproximar mais da sua própria identidade.
Trazer luz ao tema descrito no livro do Daniel Kahneman para uma aplicação mais ampliada, com foco nos impactos em uma sociedade ou comunidade, permite um olhar mais abrangente da importância de como tomamos decisões e dos riscos que estão implicados.
Como já mencionado no livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade – do autor e professor Yuval Noah Harari, o homem é a única espécie capaz de mobilizar milhões de pessoas pelo simples fato de ter a capacidade de transmitir e disseminar uma ideia ou uma “verdade”, fazendo com que todo um grupo acredite e se mobilize para tomar uma ação ou se mover numa certa direção.
Por isso, é muito importante estar consciente dos verdadeiros motivos ou impulsos que nos levam a tomar nossas decisões. Conseguir avaliar o que está por trás das nossas ações e verificar se não estamos sendo apenas influenciados pela maioria é determinante. Ser capaz de reconhecer quando agimos por impulso, poderá minimizar comportamentos sociais radicais e massivos sem fundamentos e prejudiciais. Evitar ser apenas objeto do meio, evitando que sejamos facilmente manipulados, poderá nos tornar cidadãos e seres humanos mais conscientes e coerentes. É válido refletir sobre o tema ampliando para um espectro de sociedade e comunidade para compreender os efeitos, os benefícios e os diversos impactos que podem existir quando órgãos interessados tem ciência de como os seres humanos tomam suas decisões de forma geral.
Poderíamos discorrer mais sobre os efeitos e benefícios para a sociedade como um todo, no entanto o foco do nosso artigo não é aprofundar sobre essa vertente. Por isso, fechamos esse parêntese e deixamos que você reflita como cidadão e ser humano, como parte de um grupo ou da sociedade da qual faz parte.
Seguiremos com o tema do autoconhecimento e do desenvolvimento humano como principal objetivo para explorar os conceitos e estudos apresentados pelo autor e professor Daniel Kahneman.

Quais são os fatores que estão por trás da nossa tomada de decisão?
Segundo a visão do livro, a maioria das pessoas decide com base no Sistema 1, ou seja, por fatores emocionais, impulsivos que foram sendo cristalizados na nossa mente e que entendemos como verdade ou “certo”. Na grande maioria das vezes, fazemos uso desse Sistema para decidir e tomar ações frente às situações da vida.
Nas pesquisas realizadas pelo professor e demais estudiosos, ficou evidente que existem 2 Sistemas que operam de formas diferentes internamente em cada ser humano.
Para deixar mais fácil o entendimento desses Sistemas trazemos uma figura ilustrativa que geramos com base nos conceitos abordados no livro:

As principais características de cada Sistema incluem:
Sistema 1: Impulsivo. Age de forma rápida. Responde no “piloto” automático. Opera de forma instantânea, com pouco ou nenhum esforço. Habilidades inatas do reino animal. O conhecimento fica armazenado na memória e é acessado sem esforço e intenção. Aprendeu a associar ideias, ler e compreender nuanças sociais. Não pode ser desativado/desligado
Sistema 2: Autocontrole. Mais lento, pois dedica mais tempo ao processo mental de avaliação e compreensão. Estão associadas com a experiência subjetiva, escolha e concentração. Operação altamente diversificada que exige atenção. Quando é interrompido é prejudicado. Tem alguma capacidade de mudar. É o dominador dos impulsos do Sistema 1. Tende a adotar as sugestões do Sistema 1 quando tudo está bem.
O conceito dos 2 Sistemas é uma simbologia. Isso quer dizer que não estão localizados numa parte específica do cérebro de forma separada, coexistem integralmente em cada indivíduo quando respondem às situações na vida.
Ambos sistemas permanecem ativos quando estamos despertos. O Sistema 1 gera contínuas sugestões ao Sistema 2, que passa a adotar certas informações e experiências como crenças e verdades absolutas, se cristalizando e fortalecendo.
Quando o Sistema 1 sente dificuldades recorre ao Sistema 2 para prover mais detalhes e verificar o que está acontecendo. Isso quer dizer que o Sistema 2 é acionado quando o Sistema 1 não encontra respostas, que ocorre quase sempre quando a situação/evento que está ocorrendo não condiz ou “modifica” o padrão do mundo conhecido do Sistema 1. O Sistema 2 entra em ação quando as coisas se tornam difíceis.

“O trabalho mental que gera impressões, intuições e diversas decisões ocorre silenciosamente em nossa cabeça”.
Mas o que tudo isso tem a ver com o desenvolvimento humano? Trazendo esse esquema dos 2 Sistemas, é belíssimo notar a importância do que devemos levar em consideração nos processos de autodescoberta para a transformação humana. Se, na grande maioria das vezes, adotamos padrões “viciados” do Sistema 1 para tomar decisões e responder às situações, quando queremos obter um outro resultado, será preciso fazer diferente. Vemos 2 aspectos a serem considerados nos processos de desenvolvimento humano:
- O “desacelerar” para identificar os padrões que repetimos, já que o Sistema 1 responde com impulsividade. O objetivo é permitir que o Sistema 2 seja escutado e acessado;
- Auto-observação para olhar para o processo interno e perceber como funcionamos verdadeiramente, visando detectar, por meio das pausas e com mais tranquilidade, quais são os padrões viciados que precisam ser revistos.
Aprender a desacelerar a mente e a ação deve fazer parte das abordagens dos programas de desenvolvimento humanos definitivamente. Para que seja possível adotar novas atitudes, outras formas de decisão e ação, será necessário aprender onde e como esses padrões estão localizados na nossa estrutura mental. Dessa forma, conseguiremos perceber o porquê reagimos de determinada maneira frente ao mundo e às diversas situações do nosso dia-a-dia.
Dar tempo para que o que está armazenado se dissolva e se configure de outra forma é uma maneira de evoluir em si mesmo. O tempo é um fator essencial. Esse tempo pode provocar sinapses, que ativarão o Sistema 2, colocando o Sistema 1 “para dormir” temporariamente para que as mudanças aconteçam e sejam incorporadas.
A meta deve ser: “Reduzir a velocidade e fazer com que o Sistema 2 assuma mais o controle”. Mas como isso é possível num mundo caótico em que vivemos ultimamente?
Não daremos a resposta à essa última questão. Deixamos como provocação para sua reflexão, pois para que haja desenvolvimento e transformação é necessário tempo e descanso para que os padrões sejam revistos e modificados. A auto-observação também precisa entrar nesse jogo e, para que possa atuar, necessita tempo e silêncio interno. É um paradoxo porque o que vemos é um movimento contrário na humanidade e, especialmente, nos ambientes corporativos que vivem numa velocidade incessante onde as pessoas não tem o tempo devido para se preparar para suas funções e desafios. Não existe o tempo mínimo necessário para as transformações ocorrerem e permitir que os profissionais aprendam com o processo e as jornadas. E ainda, estão sendo cada vez mais sendo exigidos a mudar mind-sets e comportamentos sem receber o suporte e o devido desenvolvimento que é requerido. E por fim, vemos muito pouco trabalho com foco no autoconhecimento das pessoas.
Concluímos nosso artigo com um trecho extraído do livro Rápido e Devagar, duas formas de pensar de Daniel Kahneman:
“Inteligência não é apenas a capacidade de raciocinar; é também a capacidade de encontrar material relevante na memória e mobilizar a atenção quando necessária”.